SOLTE A VOZ

Mulher Fora da Vitrine




SOLTE A VOZ



Você já se sentiu com vontade de dizer algo, e por um ou mais motivos não conseguiu? Tipo no seu trabalho, para aquele tio chato e sem noção, para o seu namorado, irmão ou para qualquer versão dessas pessoas no feminino? Saiba que isto é muito comum, mesmo quando estamos em lugares aparentemente "confortáveis", seja na nossa casa, ou em espaços que poderíamos falar um pouco mais á vontade. Sentir-se assim não é coisa do outro mundo, e acontece com mais frequência do que parece, e com mais pessoas que imaginamos. 

Antes de começar este papo, precisamos ter a compreensão de que este comportamento é geralmente o "esperado" das mulheres, são séculos e séculos sendo oprimidas e silenciadas de muitas maneiras e por todos os lados, não é de uma hora para outra que conquistamos tudo o que nos impediram de conhecer, e expressar. Os movimentos que buscam legalizar e valorizar a voz feminina são recentes, ainda precisamos conquistar este "respeito" de muitas pessoas, a começar pelas próprias mulheres, e não apenas como ouvintes, mas também como oradoras. 

É muito importante empoderar a voz feminina para que ela conquiste primeiramente autoconfiança, seja a partir de conhecimento, saberes diversos, embasamento teórico etc. Mas acima de tudo argumentos e segurança para agir, e também para se defender de ataques cada vez mais comuns, o medo de que as mulheres avancem de forma autônoma em falas e atitudes é muito grande. E será através dessas pessoas, e suas mensagens diversas, com linguagens múltiplas que a voz feminina se fará presente, dessa maneira a sua vontade será transmitida de forma nítida para ouvintes de todos os gêneros. 

Oi? Como assim!

Lógico que todas as armas oferecidas pelos estudos ao longo da historia feminina são importantes e indispensáveis, mas tem mais um elemento importantíssimo em igual valor, é a coragem. Precisamos ter coragem para interromper o silêncio, nos arriscar a ganhar algumas "inimizades", e isto pode parecer muito ruim inicialmente, ser a "chata" do rolê não é o sonho de infância de ninguém.

Mas até quando seremos a Barbie que sorri pra tudo, para não ficar mal com pessoas que não se importam com o nosso bem estar? Não faz sentido continuar calada ouvindo aquela piadinha sem graça para diminuir o trabalho das mulheres, ou o desrespeito quanto a sua realidade e escolhas diante do "esperado" pela sociedade, nem sempre permitir "dizer tudo o que pensa" carrega uma conotação bacana. 

Também nos encontramos diante daquela situação de "não incomodar". Mas por que eles se sentem a vontade em nos incomodar, fazer piadas desnecessárias, falar sobre o nosso corpo, cabelos, comportamentos e preferências, afinal quem disse que eles poderiam falar isso sobre nós, e para nós? Quem são estas pessoas livres para nos julgar, ou mencionar nossas atitudes sem pedir a nossa permissão? São certamente crias do patriarcado, um sistema comportamental que de várias maneiras "legaliza" tais atitudes, que são fortalecidas quando, de alguma forma, conseguem nos calar. 

Até quando vamos nos conter para manter o bom relacionamento no trabalho, na família, com o(a) parceiro(a), até quando seremos nós as responsáveis por manter a "ordem" das coisas? Talvez o desregular é que movimenta a ação das pessoas e te regula para novos rumos de convivência. É preciso aprender a responsabilizar mais de uma pessoa quando falamos de comportamentos e ações. Não queremos o fim da responsabilidade feminina, mas que ela seja justa, e o justo para quem nunca precisou se preocupar pode parecer injusto, porém é apenas desconfortável, deixem eles se acostumarem a isso. 

Quando uma opinião não foi solicitada não nos interessa o "dizer o que pensa", e isto é um problema dessas pessoas, eles precisam aprender a se conter, nem que seja pouquíssimo em relação ao que nós tivemos que suportar, não sinta pena de coisas assim, te garanto que nenhuma dessas pessoas se preocupam com o que causam em nós com comentários maldosos. E também imagino que embora isto já tenha sido compreendido na teoria, a pratica implica em muitas questões como: convivência, politica da empresa, empoderamento, timidez, etc. Mas nunca deixe de alimentar a sua energia, através de combustíveis que te traz consciência de que algo está errado, busque tudo o que torna as suas palavras fortes, converse com pessoas, estude, siga páginas do tipo Oi Manxs  *-* e outras semelhantes, aos poucos crie "terra nos pés", como costuma falar as matriarcas de nossas famílias. 

Dicas importantes 

Considere-se sempre com permissão para errar. Não estou dizendo pra você prosseguir propositalmente com atitudes escrotas e se esconder atrás do feminismo, embora muitas mulheres façam isto, mas ai já é outra matéria. O que estou dizendo é que você, como a maioria das pessoas está em frase de transição, e é muito provável que vai errar, cometer equívocos, se enganar com uma ou outra informação. O importante é que já terá se conscientizado do seu papel no mundo como mulher e ser humano. Você não é uma continuidade de ninguém, é um ser único e completo, que pode e deve se unir a outras pessoas por motivos diversos e muitas frentes, quando e como decidir, mas possui personalidade, autenticidade e saberes a partir de você. 

Você, igualmente a outras pessoas foi exposta as mesmas opressões e falas machistas deste mundão, apenas decidiu não mais se calar, não engolir, decidiu questionar, você tem voz, possui opinião e força para prosseguir com os seus estudos, e seguir com o que acredita. A sua biologia não a torna menor diante de nada que usaram para justificar a sua "fraqueza" através da cultura e suas vertentes. O seu cotidiano, os seus dias reais que qualificam e dão credibilidade a sua real capacidade, enfim, você não é o "sexo frágil", precisa ser muito forte para permanecer de pé diante do que você suportou no passado, e continua a suportar. 

Portanto não se sinta inferior quando algo do tipo acontecer, somos as antecessoras das filhas da nova era, a nova geração pisará nestas terras, e mesmo inconscientes irão nos agradecer, além disso, vamos aprender a conquistar e viver num ambiente mais respeitoso, que considere todas as falas importantes de forma igualitária, e não apenas falas masculinas. Você é grande, pode ser cada dia mais forte, e com conhecimento e direcionamento poderá conquistar muito, e melhor, incentivará outras pessoas.  

Não se cale, interfira, abra a boca, seja a chata, ou inconveniente do rolê, mas não deixe machista se criar nas suas vistas. Se cada uma fazer a sua parte direitinho eles vão se calando, até entenderem que quando quiser falar também terão que ouvir. E enfim irão compreender que, quando uma opinião não for solicitada é porque não interessa, sendo assim, deve ser guardada com sucesso. 

Grazi Nazario